gato,
isso meio que vai ser uma manutenção. tô te devendo contar da minha vida, então vou aproveitar os próximos minutos livres.
deve ter uns quatro, cinco meses que me mudei. assim que cheguei aqui vivi meio uma vibe família. tava na casa de tuka, onde também moravam andy e aline. me encaixei muito certinho lá, foram dois felizes meses embora eu morasse no sofá. a gente se dava muito bem e foi importante ser acolhida num ambiente assim. tudo era mais fácil, minha chefe era amiga de tuka e morava na casa da frente, eu tinha carona pro trabalho e a cobrança era compatível com meu cargo: assistente. tive tempo e segurança pra namorar a cidade.
depois de dois meses, me mudei para uma república perto da avenida paulista, rua augusta, etc. foi meio esquisito, eu não queria conhecer as meninas da casa, não queria vínculos. a ideia era que fosse uma passagem rápida e já tinha sido duro sair de perto do pessoal da outra casa, tava com a sensação de que estava me despedindo das pessoas o tempo todo. nesse intervalo, conheci um menino bem legal, amigo dos amigos daqui, meio que ficamos de romance até mais ou menos a época em que me mudei pra república. depois morgou, acabou o contato. naturalmente, sem dramas.
ao mesmo tempo que era ruim me separar do povo da casa e não criava vínculos na república, tava curtindo muito meu novo endereço. rolava (e ainda rola) um barato muito grande de caminhar pela paulista, pela augusta e adjacências. tenho muito prazer em sair andando no frio, botar uma música nos ouvidos... ninguém me conhece, não conheço ninguém, não quero conhecer, mas todo mundo se olha, meio que se reconhece.
todo mundo aqui é sozinho, rafa. você só entende zeca baleiro falando sobre ser mais solitário que um paulistano quando você se disfarça de um. mesmo assim, uma das minhas maiores satisfações é voltar pra casa no fim do dia solitária igual a eles, no frio, com uma música. acho que o lugar mais propício e a hora mais adequada pra se ser um paulistano é caminhando pela paulista umas 22h e eu tenho praticado isso religiosamente.
não vou dizer que não tem seu lado ruim, às vezes dá uma bad terrível de estar aqui, mas quase não sinto saudade e nunca, até o momento, pensei a sério em voltar.
mais ou menos na época em que me mudei, minha chefe saiu da agência. desabou o mundo lá, um monte de coisas bagunçadas, o time surtando e eu meio que tendo que assumir boa parte do que ela fazia. não era difícil, nada do que caiu na minha mão era algo que eu não estivesse (mesmo sem saber) preparada pra fazer. mas foi de surpresa, no susto, com um time desfalcado e um nível de exigência insano. virei a noite várias vezes pra conseguir dar conta, não tinha tempo pra fazer nem pensar em mais nada. isso durou algumas semanas, aí as coisas foram serenando.
nessa mesma época, eu frequentava quase toda semana um café perto da república, cujo sofá, inclusive, é o lugar de onde te escrevo agora. não sei qual a minha relação exata com esses lugares, mas percebi que preciso, em todo lugar que moro, eleger um café preferido. aí em recife era o castigliani, que também era do lado da minha casa. acho que preciso morar perto do meu café preferido da cidade. nesse café tinha um atendente muito bonitinho. toda vez que vinha aqui ele me atendia. era simpático, bonzinho, um fofo. comecei a gostar do garçom. meus amigos entraram numa de me adiantar. falaram com ele, ele falou comigo, começamos a conversar por meios remotos, uns dias depois eu tava num date.
acho que gostei desse menino. acho massa porque em recife a chance de isso rolar era muito mais rasa, e aqui, foda-se, simplesmente acontece. acho que isso faz parte de um dos meus grandes baratos aqui em SP. não ser ninguém e, exatamente por isso, poder ser como eu quiser. escrevi sobre esse menino no 300 corações, se tu passar lá vai ver uns textinhos bonitos recentes, foram pra ele. depois paramos de nos falar. foi bem quando as coisas tavam em chamas lá na agência, parei de passar aqui no café na volta pra casa, ele também parou de falar, talvez ele nem estivesse tããão a fim assim...
comecei a ganhar a confiança do diretor do nosso time quando os incêndios lá na agência foram se apagando. há quase dois meses que saio de lá bem depois do meu horário, o ritmo ainda não ta normal, mas já ta bem mais fácil. também não reclamo nem me incomodo porque, se saísse cedo, pra onde eu iria? pra casa, ligar o computador? não tenho pra o quê nem pra quem voltar. não tenho mais uma irmã nem uma cachorra esperando em casa. não tenho mais a farra que era chegar na casa de tuka e fazer bruschetta pra ela, andy, aline e os visitantes que sempre tinham lá ou mesmo ficar conversando antes de dormir. acho um saco ir pra casa e sempre vou esperando a hora de o dia seguinte começar.
embora a semana seja pesadíssima, não deixo de sair no fim de semana. ainda namoro são paulo, mas entramos numa fase diferente do relacionamento. antes era aquele deslumbramento, tudo que ela fazia eu achava lindo. me encantava com o clima, a paisagem concretada, os grafites, as pessoas que são bonitas no transporte público... agora somos mais maduros. é bom estar nela, ser dela, mas enxergo e reprovo seus defeitos, fico de saco cheio das coisas repetidas, procuro novidades.
me sentia segura em são paulo, mas fui traída. baixei a guarda feliz da vida com essa aparente segurança e fui roubada em plena augusta, com mil pessoas em volta. tive o celular arrancado da mão justo aqui, justo eu, que sempre fui bem safa, que escapei intacta de recife. o roubo do celular foi uma espécie de amputação. vou me achar babaca, no futuro, por ter falado isso, mas foi a sensação daquele momento. eu dependia daquela máquina pra muita coisa, fiquei realmente triste. não houve abordagem nem violência, o ato foi tranquilo, a perda é que foi violenta. mas eu tava de guarda baixa para a cidade, quanto mais a gente dá confiança, mais dói a traição, né? só que passou logo. isso foi semana passada, hoje já te escrevo do meu smartphone novo, tudo em SP se cura mais rápido, a cidade não te dá tempo de lamber feridas.
no meu namoro com são paulo rolou uma resolução: ir a pelo menos um novo lugar a cada semana. é uma cidade tão grande e louca e orgânica que tenho plena consciência de que posso passar décadas nessa tarefa. por enquanto ta sendo divertido e é assim que tenho descoberto parques, bares, cafés, baladas (aqui não chamam boate. boate, aqui, é puteiro), inferninhos, festas de rua, atividades culturais e, claro, pessoas.
nessa de descobrir novidades, também redescobri um prazer: pedalar. aqui rola um movimento muito forte na direção de viabilizar o trânsito de bicicletas, a iniciativa sustentável, etc. ao mesmo tempo, parei de ter carro e continuo seringueira pra gastar com táxi, então andar de bicicleta não só virou uma atividade física como solução de transporte. rola um prazer bem louco de sair pedalando, há meses que tinha parado de correr em recife e sentia falta dessa endorfina. fora isso, acabo aproveitando o passeio, o caminho, não só o destino final. a propósito, ali onde tem seringueira era "pirangueira". esse celular paulista não entende nada das expressões de recife.
de coisa bem recente tem um menino que conheci semana passada. acho que ele meio que ta gostando de mim e eu to gostando de ter ele gostando de mim. tá cedo pra falar mais sobre isso, mas já fica aqui o sinal para o caso de eu chegar, depois, com novidades sobre isso.
e é isso, rafa. agora tu sabe mais de mim do que eu sabia quando sentei aqui no café do garçom que eu gostava pra te escrever. é bom parar, as vezes, e fazer uma manutenção como essa, que acaba sendo até pra mim um balanço das atividades, uma pausa pra recalcular rotas...
se bem que não adianta muito, eu posso traçar o plano que for, já percebi que ele nunca ocorre igual e que, na maioria das vezes, as adequações acabam fazendo ele mais interessante do que no princípio. de qualquer forma, tamo aqui sabendo da vida um do outro e conhecendo o novo rafa e a nova piu que a vida ta construindo, mesmo a vários quilômetros um do outro.
quando o rafa daí tiver mudanças suficientes pra pensar "isso é tão significativo que, se não souber que aconteceu, piu não vai me reconhecer", ou então quando tiver uma horinha livre num café e quiser que eu saiba de tu, me manda uma dessas também.
um beijo e, talvez, alguma saudade.
piu.