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sexta-feira, 15 de julho de 2016

as mentiras que pais e mães contam

eu vejo pessoas que têm filhos repetindo aquele cliché de que têm que trabalhar mais porque precisam garantir o leitinho das crianças, porque arroz e feijão estão caros, porque fralda custa dinheiro e outras máximas que envolvem o custo de sustentar uma ou algumas crianças no mundo que a gente vive.
eu fui lá e tive um filho, e agora falo daqui do outro lado: grande mentira.
criança não custa tanto assim. não no estilo médio de vida que a gente — eu e a maioria das pessoas ao meu redor — leva. fraldas, roupinhas, um plano de saúde, alimentos saudáveis (a gente compra até orgânicos, um luxo!) comprometem muito menos do nosso orçamento mensal do que, digamos, a necessidade de morar num bairro descolado, todas aquelas saidinhas pra comer em restaurantes legais, as festinhas onde consumimos em estado líquido um pedaço do nosso salário, duas passadinhas na zara este mês.
sabe o que custa muito em ter filhos, e que é a real justificativa por trás das desculpas atreladas à grana?
disponibilidade.
dedicação.
paciência.
tempo junto.
ter filhos, meus amigos, é uma demanda constante e — ouso dizer, com meu pouco tempo de experiência — duradoura. de todos esses recursos aí. mil vezes mais que de dinheiro.
aliás, se você for escutar as crianças que têm uma relação saudável com os pais e procurar investigar o que elas gostariam deles, esteja certo que as respostas vão girar em torno disso. mais sobre tempo, menos sobre dinheiro.
os filhos dos meus amigos falam isso em suas inocentes demandas infantis. brinca comigo, me ajuda a descer daqui, olha essa folha, me levanta pra eu ver do outro lado. meu filho nos passa essa mensagem todos os dias, pra mim e para o pai, quando demonstra que toda a disponibilidade que oferecemos ainda é pouca para a necessidade dele de entender o mundo, visto que nos dispomos a ciceroneá-lo nesses primeiros anos aqui no planeta. isso porque ele ainda não sabe conversar pra valer. aliás, talvez mude, quando começar a conversar pra valer. antes do verbo a gente é muito mais transparente, né? mas agora estou divagando.
fui uma daquelas crianças que cresceu ouvindo que não dava “trabalho”, e só agora, depois de adulta, descobri que isso não era bom. deixei de dar trabalho para dar despesa numa boa escola, no cursinho de inglês. pagavam uma empregada em casa, que garantia que as refeições estivessem prontas, a casa limpa e que eu e meus irmãos não tocássemos fogo uns nos outros. quando minha mãe viajava, ganhávamos filmes da disney em VHS e brinquedos que brilhavam e piscavam e faziam sons. tudo que os chineses pudessem fazer de mais interativo. não ganhei uma viagem à disney, porque a coisa também não era tão folgada assim. não exigia muita atenção, lia, via muita TV, brincava no quintal, dormia. não dava trabalho, e assim meus pais trabalhavam por mais dinheiro todo o tempo que fosse preciso.
corta. 2016.
garantir o leitinho das crianças não é caro. até porque leite nem é um alimento necessariamente saudável, blablabla, etc. e por que motivo eu e metade dos adultos com filhos que eu conheço hesitam tanto antes de ter mais um? 
disponibilidade.
dedicação.
paciência.
tempo junto.
enquanto dinheiro pode, em alguns contextos, crescer em progressões aritiméticas (ou geométricas, sortudos!) esses recursos são finitos. todos os dias temos, no máximo, 24 horas. nessa existência, uma vida. e trabalhamos, vamos ao mercado, limpamos a casa, pesquisamos aquela viagem — não necessariamente à disney.
estar física e emocionalmente dedicado a uma ou mais pessoas pode ser tão exaustivo quanto prazeroso. tão exaustivo quanto encantador. nem sempre recompensador, e nem deve ser esse o objetivo, afinal.
se encontraremos condições para tanto ou mesmo se faremos deliberadamente essa escolha é uma conversa diferente. mas podemos inclusive criar novos clichés: “preciso trabalhar menos, já viu quanto tempo leva um passeio na pracinha?”, “preciso acordar mais tarde, sabe como desgasta confortar uma criança resfriada à noite?” e meu favorito: “tenho que tirar férias novamente este ano. sabe como é, quero aproveitar que meus filhos não vão à escola em janeiro e em julho”.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

a felicidade da cadeira

filho,
trocamos a sua cadeirinha, no carro. relutei em admitir que aquilo faria alguma diferença pra você, porque algo tão prático e material não poderia realmente ser relevante. mas, filho, como essa prosaica cadeira nos fez feliz! e como, lá na frente, tudo isso vai virar paisagem e você vai entrar no carro sem se lembrar, eu queria contar tudo agora pra você. pra mim.

neste fim de semana, mudamos o equipamento e a posição. virado pra frente e na vertical, você ficou incrédulo e maravilhado, sorrindo de todas as maneiras que o seu corpinho tinha para manifestar a satisfação. ao lado você tem à vista a janela e todas as coisas curiosas que se apresentam através dela. à frente estamos eu ou seu pai ou nós dois, e você nos cumprimenta o tempo inteiro enquanto o carro desliza seu caminho pelo asfalto. filho, quando olho pra trás você dança. meu amor, você dança sentadinho uma curta e alegre coreografia que consiste em balançar o tronco e as perninhas, mesmo que não tenha música tocando, apenas pra corresponder à minha olhadinha rápida pra trás, quando o carro para no sinal. você dança e sorri, e eu sorrio, e somos felizes naqueles segundos. 

a pequena felicidade que é a sua dancinha faz especial uma cadeira qualquer, filho. e eu entendo aquilo que as pessoas vão a palestras, meditam na índia e compram livros pra entender.

terça-feira, 8 de março de 2016

Quando Teodoro nasceu

Fez um ano. Nos encontramos naquela tarde de segunda-feira, nos abraçamos e nos trouxemos um ao outro até aqui. Teodoro nasceu numa tarde quente, na hora em que eu deveria estar numa reunião de trabalho. Veio ao mundo como as coisas rotineiras, sem anúncio, sem alarde, sem pressa, ligeiro. Depois do carnaval, pra não concorrer e nem incomodar. Mudou terminantemente a vida de todo mundo.

Nasceu na água e com água por toda parte do mapa. Os olhinhos rasgados e gestos pequenos dos náufragos do oceano amniótico se encontraram com os meus que, do outro lado, construíram ponte com os do seu pai - banhados. Um parto é um evento úmido.

Acordei antes do despertador com uma cólica que em nada se parecia com as contrações aprendidas. A gravidez nos mergulha num mar desconhecido sem praia pra voltar, e somente por isso nadamos pra frente. Ter um filho na barriga é de curvar o horizonte. Entrei e saí do banho sem saber se era e, por exaustão da espera, enviei uma mensagem desmarcando as reuniões do dia e dando início à licença do trabalho. "Ainda pode durar dias", repetiram na minha cabeça todas as leituras que até ali eu fiz. 

Com a cólica cada vez mais forte, tive tempo de me admirar com o homem assustado, ainda mal acordado, que descia as escadas carregando as nossas malas e - cereja do bolo no retrato da minha memória - a cadeirinha de carro na qual traríamos pra casa um bebê. Um completo exagero, a meu ver. Eu não estava em trabalho de parto.

São contrações, você está em trabalho de parto, anunciou a obstetriz com uma mão sobre a minha barriga ainda na porta da casa onde eu ia parir. Tinha àquela altura três centímetros dos dez necessários para dar passagem a um bebê, e mais uma vez os estudos me lembraram que devia demorar. Por isso ouvi de longe e com surpresa ela dizer para uma mulher grávida com rosto de dor que de alguma forma era um desenho surrealista de mim: vamos te internar e ver como vai evoluir.

Pedi pra ficar sozinha naquele quarto que não conhecia e, sem mais nada em cima do corpo, procurei posição de alívio até o momento de chamar deusas, antepassadas, santas e orixás. Entrei num tempo que jamais pude visitar novamente, um tempo que é de outros planetas. Flutuei até o chuveiro onde despertei pedindo ajuda a uma fada que veio acudir: a água está fria. No pingo do meio dia, o banho gelado só me cortava a carne, e foi agradecida e aliviada que entrei numa banheira muito quente de onde só saí três horas depois segurando um bebê.

Parir é uma solitária aventura - por mais companheiros, profissionais, almas e amigos que você decida chamar para participar. Por isso foi preciso calar, conversar com meu corpo, com o menino dentro dele, com meu passado e meu coração. Conversar e deixar doer até o insano instante em que se crê: não posso mais. É quando as companhias se fazem queridas. E aquela mão firme pressionando lá nas costas, jogando a água quente bem em cima de onde dói, essas mãos e os olhos que sustentam o nosso olhar de dor são a lembrança de que acompanhados suportamos.

Foi com todo o respeito e carinho do mundo que aquelas duas mulheres profissionais em chegada da vida e o homem que convidei pra essa aventura me atenderam, me alimentaram, me ampararam e, em última instância, me retornaram à Terra quando meu espírito pensou em querer vagar.

Eu senti um estouro, chama a obstetriz, acho que foi a bolsa. Foi a bolsa, rompeu. A água está limpa. Ainda demora muito? Dilatação quase total.

Teodoro nasceu às três da tarde, quando o sol forte lá de fora entrava filtrado pelas cortinas escuras. Eu não fazia ideia do que aquelas mulheres estavam fazendo quando começaram a entrar empurrando carrinhos cheios de equipamentos. Você gosta de velas? Essências? Gosta de lavanda? E eu, que queria mandar a lavanda para o inferno, sorri com a gentileza de tão lindas pessoas. Só depois entendi que não era pra mim. Nem a lavanda nem as luzes baixas nem o profundo silêncio que se fez dali por diante.

Emergindo metade do corpo do banho em que mergulhei desde a chegada naquela sala mágica, me vi mais uma vez à distância experimentar todas as posições que conheci na ioga. Então era pra isso que servia, meu deus, como são sábios esses hindus. Bia, por favor, me ajuda. E ela mantinha os olhos nos meus e respirava. Magicamente eu também respirava e meu corpo trazia mais pra perto o filho que eu ia ter.

Em dado momento, a moça jovem e simpática se converteu numa anciã conhecedora da vida e sua voz veio do centro do mundo quando ela calmamente me avisou para não sentar e aguardar a próxima contração. Metade do corpo do meu filho havia passado e quando, na sequência, ele escorregou para fora, ela mais do que rápido o recolheu de dentro da banheira e jogou em cima de mim. Antes que eu pudesse entender, um par de olhinhos de água doce me olhavam de baixo pra cima e eu o beijei e disse que ele era bem vindo. Agora somos um trio, anunciei para o companheiro extasiado que, da borda, ao meu lado, testemunhava o milagre.

Enquanto, nos minutos seguintes, eu olhava, cheirava e conhecia aquele menino, as bruxas parteiras daquela casa me lembravam que o parto só acaba com a saída da placenta, e foi depois de massagens e alguma tração que ela veio. Imensa, vermelha, a raiz da vida humana.

Tira a camiseta, você agora vai segurar ele, elas ordenaram para o pai de Teodoro. Da maca eu olhava das caras preocupadas dela, tentando parar a hemorragia que começava, para a cara maravilhada dele, que encontrava e unia no rostinho do filho o passado e o futuro, as respostas, as perguntas e as lembranças. O relógio saltava intervalos de quinze a cada dois minutos.

De alguma maneira extraordinária elas me salvaram e eu pensei que seria mesmo muito cedo pra ir embora se havia tanta diversão pra experimentar agora que Teodoro estava no mundo. Ele foi rapidamente examinado só então, e foi aí que eu me dei conta que ele nasceu sem chorar. Cruzou todo o intervalo até aquele instante apenas absorvendo o carinho da nossa recepção e, de volta ao colo, novamente ficou em paz. Daquele lugar - o colo, a paz- poucas vezes saiu.

Meu parto acabou e eu estava inteira, segura, acolhida e tranquila. Tudo, dali pra frente, seria bom. Vem sendo. A aventura de ser portal para uma pessoa chegar aqui na Terra é transformadora e, hoje, um ano depois, eu ainda não sei com certeza quem virei e o que vou fazer com isso. Venho fazendo no improviso. Outras mulheres já me contaram que talvez nunca mais venha a saber. Tudo bem.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

o hospital e a casa de parto - espaços hiper reais

chego à sala da recepção de um luxuoso hospital paulistano. me parece engraçado associar as palavras luxo e hospital, mas elas são muito apropriadas, uma vez que cruzo dois corredores de lojas de enxoval, roupas infantis e até flores de grandes grifes, passo por mulheres arrumadíssimas com seus bebês no colo acompanhadas de homens que empurram carrinhos, como os de aeroporto, carregados de sacolas de marcas ligeiramente acima da média, e, finalmente, chego à atendente que vai me apresentar a maternidade do hospital, que já explica para as outras nove grávidas presentes e os seus parceiros detalhes da eficiente hotelaria de que dispõem.

a atendente me apresenta ao grupo brevemente: essa é a outra gravidinha que pretende ter parto natural (sic). antes de mim, uma outra mulher ao meu lado recebeu os mesmos olhares que recebo agora. alguns me cumprimentam baixinho - "que corajosa". aqui não se usa o termo "humanizado" para falar de mulheres que dão a luz e bebês que nascem sem (ou quase sem) intervenções. ela segue com o rosário de informações sobre as dependências da maternidade, o processo habitual do parto (cesárea, o padrão) lá, a tesouraria ("onde às vezes o papai é chamado antes da alta, porque tem alguma despesinha extra pra acertar, né?"), o berçário (ponto alto do tour, que ela anuncia com uma breve fanfarra, antes de abrir espaço para a longa vitrine onde se enfileiram os recém-nascidos) e, por fim, as suítes.

não se fala em preços, não se fala em possíveis custos extras, não se fala em filosofia de atendimento dessa instituição. mas fala-se com muita ênfase o que as mulheres devem trazer na mala para elas e os bebês usarem durante a internação, sugere-se fazer a manicure com uma cor translúcida ("porque os médicos precisam monitorar a cor da sua unha durante a cirurgia, aí às vezes eles tiram o esmalte de um dos dedos. sem nenhuma delicadeza, né? aí fica aquela unha borrada depois") e ressalta-se que a maquiagem está liberada, mas que, no caso de parto normal, sugere-se que seja uma maquiagem mais potente e à prova d'água, pra durar todas as longas etapas. no fim do passeio, damos mais uma passada pelo berçário e, agora, uma enfermeira dá um automático banho num recém-nascido, ante o olhar confuso e maravilhado do pai, que sustenta entre seu corpo e a cena uma câmera de celular. a nossa guia explica que, por protocolo do hospital, o primeiro banho é dado no bebê pelas enfermeiras, pouco após o nascimento, mas os pais estão liberados para assistir, enquanto a mãe está finalizando a cirurgia (sendo costurada). sugere que os pais se lembrem de gravar, senão depois as mães ficam bravas com eles de não ter uma imagem desse momento para saber como foi. tento me imaginar saindo com meu filho desse lugar, mas um certo desconforto bloqueia esse pensamento.

no dia seguinte tenho consulta na casa de parto humanizado em que faço o acompanhamento da minha gravidez, e onde pretendo ter meu filho. na entrada, o cheiro de um bolo assando é sempre presente, enquanto outro repousa num aparador junto com suco natural e algumas bananas, à disposição dos visitantes. a obstetriz que vai me atender está atrasada, devido a um parto que está acabando de auxiliar. aparece minutos depois e se desculpa, dando início à nossa hora quinzenal de conversa e exames. ainda não nos conhecemos, por isso ela consulta meu histórico nas fichas cuidadosamente redigidas pelas enfermeiras e obstetrizes que me atenderam anteriormente. pergunta como anda cada um dos incômodos físicos que relatei nas últimas consultas, e se há novos. discute todos eles. nota também os comentários sobre meu aspecto emocional - meu medo de um parto prematuro ou tardio (fora da janela de tempo considerada de baixo risco, condição para ser atendida na casa) e de rompimento da bolsa muito antes do início trabalho de parto (fator que me obrigaria a uma remoção para administrar antibióticos e hormônios indutores num hospital), pergunta da relação com o pai do meu filho, com nossas famílias, dá valiosos conselhos sobre aceitar perder o controle e confiar na sabedoria do corpo.

na sequência, ela revê antigos exames e nota que falta trazer alguns novos, explica que um deles não é mais obrigatório, por atualização de protocolo do ministério da saúde - e por quê - mesmo alguns médicos insistindo em pedir. confere as vacinas que tomei desde a última consulta, meu peso, pressão arterial e, por último, me ajuda a deitar para medir e ouvir o conteúdo do meu útero. pede licença para tocar meu corpo, cumprimenta meu filho pelo nome, faz os procedimentos e me ajuda novamente a levantar e calçar os sapatos. se desculpa outra vez por ter atrasado e, com isso, ter que encurtar um pouco a nossa consulta. estamos há cinquenta minutos conversando.

permaneço na casa para esperar a oficina de primeiros cuidados com o bebê, ministrada por outra enfermeira, que me cumprimenta pelo nome na entrada. é uma das minhas preferidas, sempre com informações consistentes aos medos e dúvidas minhas e de outras futuras mães (e pais). ela inicia a apresentação com detalhadas informações sobre a fisiologia do corpo feminino e do recém-nascido, intercambiadas com outras de aspecto pedagógico, emocional e cultural. um homem acompanhando a parceira faz cabeludas pergunta sobre a alimentação da mãe durante o período de amamentação, que ela responde firmemente ressaltando o que tem evidências científicas, em quais estudos, e o que é conveniência ou crença popular. finalizamos com a simulação prática de um banho apropriado não apenas à higiene, mas à tranquilização e fortalecimento de laços com o bebê, limpeza de umbigo e troca de fraldas. o clima geral é de aprendizado e confiança. me sinto confortável ali, não sou uma "corajosa" excepcional, só uma mulher comum querendo usar os mecanismos ancestrais do seu corpo.

na manhã seguinte, a atendente do hospital onde estive - lá no início - me liga com resposta a uma dúvida que não soube responder no outro dia: sendo aquela a maternidade de referência para urgência e emergência do meu plano de saúde, se eu tiver alguma intercorrência durante o parto, posso ser removida pra lá? depois de conversar com instâncias superiores, afirmou satisfeita que sim. não estou absolutamente convencida de que esse seja o tipo de assistência que se precise de autorização prévia e especial para se obter, mas, bom, obterei. ela baixa o tom de voz e me conta que sua irmã, grávida de poucas semanas, acaba de agendar para ir uma palestra na casa de parto humanizado, após breves informações sobre a instituição que dei para ela no dia da visita ao hospital. diz que a irmã tem medo da cirurgia, que já está agendada pelo seu médico do convênio.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ressignificado

filho,
não vou perder nosso tempo explicando coisas que você vai compreender e significar por conta própria - com o próprio olhar e experiência. mas gostaria de te contar o que era família, pra mim, antes de você. e um acontecimento.

somos de uma insólita linhagem de mulheres e homens nordestinos, agricultores, camponeses e, dos seus avós pra cá, burgueses também. tanto do lado do meu pai como do lado da minha mãe. a maioria é de gente larga, portadora de ombros fortes, herança dos tempos em que se lavrava a terra e se cuidava dos animais pra poder viver. em todos os últimos séculos, misturaram-se brancos europeus e índios nativos, talvez outras misturas mais, até existirmos como somos, aqui. essas pessoas, por todos os lados, são quem eu chamava de família.

depois agreguei outros significados ao termo. dividindo a adolescência com primos e irmã em recife, com os amigos descobertos no colégio, na faculdade. uns outros trazidos pelos primeiros. chamei de família os melhores amigos que obtive na acolhida recebida em são paulo também.

até que, hoje de manhã, você há cinco meses e meio dentro da minha barriga, um senhor me saudou na rua: bom dia, família! olha que loucura, filho. olha que vida gostosa. olha o que você faz comigo.